Vivemos numa era em constante mudança, em que o digital evolui cada vez mais depressa e as respostas chegam antes de as perguntas surgirem.
Antigamente, quando tínhamos uma dúvida, investigávamos, procurávamos informação, líamos e refletíamos. Hoje, com o avanço da inteligência artificial (IA), estamos à distância de um clique da solução para todos os nossos problemas. Ou será, afinal, o contrário?
A inteligência artificial pode ser uma mais-valia em muitos aspetos. Mas não estará, sem darmos por isso, a criar outros problemas? Recorremos a esta ferramenta para tarefas cada vez mais simples. Tarefas que, há poucos anos, nem nos passaria pela cabeça delegar. E, com o hábito de colocar mil e uma questões a uma máquina, deixamos de as colocar a nós próprios. De refletir sobre elas.
Por mais vantajosa que esta ferramenta seja, não estará também a provocar uma espécie de “sedentarismo mental”? Uma dependência cognitiva que, pouco a pouco, enfraquece o pensamento crítico, a criatividade e até a capacidade de construir raciocínios?
A partir do momento em que deixamos de questionar e de procurar respostas em nós próprios, a inteligência artificial deixa de ser uma extensão do pensamento humano e passa a ser a sua substituição.
Mas esta realidade não se fica pelo público em geral. Vemo-la também em marcas, empresas e organizações que olham para a IA como uma solução rápida para comunicar. Estas plataformas foram criadas para ser aproveitas como um auxílio ou uma fonte de inspiração, mas neste momento estão a ser usadas de forma exagerada ameaçando substituir profissionais especializados, desvalorizando as áreas envolvidas e, no fundo, o próprio valor humano.
E depois? O que acontece?
Acreditam que qualquer pessoa consegue fazer o mesmo e de que o público não repara. Mas repara. Identificamos rapidamente os textos e as imagens que parecem apenas copiados e colados, as mensagens previsíveis, os discursos sem identidade. Promover um evento com um cartaz gerado por IA, cheio de elementos visuais onde mal se percebe a informação, quanto mais a sua veracidade, e onde nem houve o cuidado de verificar se existem erros ortográficos. Isto, não é o mesmo que comunicar com estratégia.
E porquê?
Porque comunicar não é produzir artificialidade. Falta-lhe a parte humana: a emoção, a atenção ao detalhe, o cuidado com cada pormenor, a credibilidade, a autenticidade e a originalidade que se sente em cada conteúdo pensado para não ser mais um, igual a tantos outros. E isso não se substitui. A credibilidade constrói-se com confiança, e a confiança ganha-se com proximidade. Mas ainda se perde mais rápido.
O problema no fundo não está na ferramenta, está na forma exagerada como a começámos a utilizar. A inteligência artificial devia ser um apoio, não uma muleta. E, como em tudo na vida, pede equilíbrio: que a usemos para pensar melhor, mas não para deixar de pensar.
